sexta-feira, 12 de abril de 2013

A utopia

"Quando algo é uma utopia, senão a partir do instante em que se pergunta sobre seu futuro ou sobre a possibilidade de sua efetuação? Deixe isto de lado; a revolução não tem futuro, e muito menos precisa de passado. Pense-se no evento, no acontecer dela.
Um escritor não deve considerar a pátria como uma coisa pronta. Pelo contrário, admitir que sua obra colabora para dar consistência, força e beleza à Pátria - e que esta, se distingue pelos trabalhos de seus artistas e cientistas, de seus pensadores." 


 Cláudio Ulpiano

sexta-feira, 8 de março de 2013

Por que "Dia da Mulher"?


Essa denominação Dia Internacional da Mulher sempre me deixa muito irritada porque soa piegas e paternalista. Instituir uma data comemorativa e nomeá-la "Dia da Mulher" deixa implícito que a mulher é um Outro num mundo de homens. Por que não "Dia Internacional da Luta Feminina"? Aí, sim, esse dia teria contemplado o seu  verdadeiro significado, assim como o Dia da Consciência Negra. Não existe o Dia do Negro, por que Dia da Mulher?

Detesto essa pieguice de homenagear as mulheres com flores e recadinhos melosos. Não que eu seja insensível, muito pelo contrário, até que sou bem romântica. O problema é misturar as coisas. Este dia deveria ser comemorado como aquilo que de fato representa: a luta das mulheres pelos seus direitos e pela conquista do seu espaço no mundo, uma luta que não acabou; é uma luta diária, de mulheres guerreiras, que confrontam poderes, subvertem regras, desafiam convenções e traçam o seu próprio destino. Mulheres que enfrentam jornadas duplas, pressões sociais, violência, preconceito, menosprezo e piadinhas machistas. Mulheres que não desistem. Mulheres que resistem e insistem na força de sua existência.

Este dia é dedicado a todas as mulheres do mundo que lutaram e lutam pelo direito de serem respeitadas como seres humanos: Anas, Marias, Joanas, Clarices, Dolores, Naras, Maysas, Leilas, Franciscas, Julianas, Ritas, Ivones, Lauras, Saras, Isabeis...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crônicas cariocas

Não sei se é uma nova moda... Só sei que as legítimas cariocas da gema, garotas de Ipanema, Copacabana, Leme e Leblon andam desfilando por aí, cheias de graça, no mais tradicional estilo aeróbico inaugurado por Jane Fonda nos anos 1980. Traduzindo: meião esticado até os joelhos por cima da legging colada ao corpo. Na dúvida, aderi. Não foi uma escolha estética. O visual, de gosto duvidoso, definitivamente não me atrai. Também não foi para estar em dia com as últimas tendências do mundo fashion. Fashionistas de plantão que me desculpem, mas estou pouco me lixando para esse tipo de coisa. Minha adesão ao modismo retrô tem um motivo exclusivamente pragmático, para não dizer, paranoico: medo da dengue!

É isso mesmo. Nada de glamour. Noia total. Afinal, “seguro morreu de velho”, já dizia minha finada avó, com toda a sabedoria dos ditados populares. Quem circula pelos logradouros da dourada zona sul da cidade mais-que-maravilhosa deve saber do que eu estou falando. É uma infestação assombrosa. Em alguns pontos de Copacabana se formam verdadeiras nuvens de mosquitos pairando sobre as calçadas, em pleno sol do meio-dia, só aguardando a oportunidade de “fazer uma boquinha” – à noite também! Tanto que outro dia desisti de assistir a uma peça quando me vi acompanhada de vários integrantes da família Aedes na fila do teatro. Vade retro. Deus me livre e guarde. Os descendentes dos culicídeos que me perdoem a indelicadeza. Sei que são cosmopolitas, e talvez também apreciem as artes cênicas, mas dispenso sua companhia. Prefiro ficar só.

O que mais me intriga é a tranquilidade das pessoas ao meu redor. Ninguém, além de mim, demonstra inquietação, ninguém parece se importar com a presença ameaçadora dos transmissores potenciais do vírus dengoso. O que faz essas criaturas se sentirem tão tranquilas? O que elas sabem que eu não sei? Ó, enigma. Confesso que, além de estupefação, me causa certa inveja esse ar blasé dos passantes. Quem me dera caminhar despreocupadamente pelas ruas. Sem conseguir alcançar o misterioso segredo de tamanha serenidade alheia, só me resta fugir dos mosquitos como o diabo da cruz. Basta eu avistar a sombra de um deles se aproximando para acionar rapidamente minha estratégia de fuga. Modéstia à parte, sou boa nisso. Nenhum deles conseguiu me pegar. Bingo!

Por segurança, não saio de casa sem antes tomar medidas drásticas: me cobrir dos pés à cabeça – a despeito da temperatura acima dos 30 graus lá fora – e borrifar boas doses de spray repelente nas únicas partes descobertas do corpo, ou seja, apenas mãos e pescoço (o rosto não conta porque, estando com os olhos bem abertos, é possível monitorar qualquer tentativa de ataque pela linha de frente). Com isso me sinto mais protegida e preparada para enfrentar a ameaça do exército de sugadores prontos a atacar a qualquer momento. Essa tática de guerra ajuda a manter afastados os mosquitos mal intencionados, mas também destrói qualquer chance de aproximação romântica. Enfim, não se pode ter tudo na vida.

O mundo é cheio de perigos. O Rio de Janeiro, então, nem se fala. Mas hoje, sinceramente, tenho muito mais medo do mosquito da dengue do que de ladrão.

Siomara Spinola
06 de fevereiro, 2013

terça-feira, 22 de maio de 2012

Antissocial?

Antissocial


Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2012.

RIO DE JANEIRO - No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me tornar "amigo" de fulano ou para "fazer parte de sua rede profissional". São convites amáveis, endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo.
Sempre que recebo esses convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por exemplo, qual é a "rede profissional" de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida -e ele me convidou a me juntar à sua "rede".
Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior, temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu "amigo" ou juntar-me à sua "rede".
O ridículo é que os que me convidam a tornar-me "amigo" deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?
Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão, um brilho no olhar.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

Para quem quiser conhecer, segue atalho para visualização do meu livro
História Rio de Janeiro:

http://www.abrileducacao.com.br/pnld2013 - Regionais História - Rio de Janeiro


quinta-feira, 17 de maio de 2012



Pensamento do dia


"A liberdade é mais importante do que o pão."


(Nelson Rodrigues)

sábado, 24 de março de 2012

Texto autoexplicativo

"Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor (...)
Um fama entra pelo bosque e embora não precise de lenha olha ambiciosamente para as árvores. As árvores sentem um medo terrível porque conhecem os hábitos dos famas e temem o pior. Entre elas há um belo eucalipto, e o fama ao vê-lo dá um grito de alegria e dança trégua e dança catala em torno do perturbado eucalipto, dizendo assim:
- Folhas antissépticas, inverno com saúde, grande higiene.
Puxa um machado e bate no estômago do eucalipto sem se importar com nada. (...)"

Júlio Cortázar. Histórias de cronópios e de famas.