Cópia Fiel. Diálogos inteligentes, sutileza de linguagem, jogo de ambiguidades e ironia, verso e reverso, verdadeiro e falso, chiaro-escuro, superfície e profundidade, ficção e realidade, perguntas sem respostas; sem conclusões, sem final, sem lições de moral. Tudo isso somado a atuações impecáveis.
Filme brilhante na sua complexa simplicidade. Kiarostami surpreendeu, rompendo fronteiras linguísticas e espaciais num exercício de desterritorialidade. Irã-França-Itália-Inglaterra ocupam ao mesmo tempo um mesmo espaço. Dá para sentir uma aproximação entre o melhor do cinema iraniano e o melhor do cinema francês, algo entre Rohmer e Truffaut, com tempero italiano à la Antonioni.
sábado, 19 de março de 2011
sábado, 6 de novembro de 2010
Falando em futuro...
Falando em futuro...
Disse Godard: "A ética é a estética do futuro", talvez se referindo a um futuro que nunca alcançamos, pois será sempre futuro.
Disse Godard: "A ética é a estética do futuro", talvez se referindo a um futuro que nunca alcançamos, pois será sempre futuro.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
A ação do futuro
"A ação do futuro, que ainda não existe, sobre o presente não me parece nem mais nem menos concebível do que a ação do passado, que não existe mais." A ação dos fatos futuros
Não é certo que o presente trecho que Gabriel Tarde escreveu no passado nos remete imediatamente a um futuro-já? Pois se, agora, agora mesmo, neste momento-instante, neste lapso de tempo que já me escapa, a ação já se faz, além... além do espaço, além de mim.
Não é certo que o presente trecho que Gabriel Tarde escreveu no passado nos remete imediatamente a um futuro-já? Pois se, agora, agora mesmo, neste momento-instante, neste lapso de tempo que já me escapa, a ação já se faz, além... além do espaço, além de mim.
sábado, 2 de janeiro de 2010
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Teorema: uma proposição para os dias de hoje
Creio que muito já se falou sobre Teorema e não sei se vou trazer algo de novo aqui, mas, de qualquer forma, entre as várias interpretações possíveis do filme, históricas e a-históricas, penso que não dá para desvinculá-lo de sua estreita relação com a burguesia, pois trata-se, sem dúvida, de uma crítica contundente ao sistema capitalista industrial burguês.
Contudo, o filme extrapola o contexto político-histórico ao desenhar uma cartografia sentimental das relações que se estabelecem entre as personagens, atravessadas por diferentes afetos em diferentes intensidades. Transcendendo as questões políticas, sociais, econômicas, Pasolini coloca questionamentos ligados ao sistema de crenças e valores, ao sentido da vida, enfim, sob a forma de metáforas. A sexualidade é o canal por onde os fluxos se movimentam.
Uma vez que um teorema é uma proposição que, para ser admitida ou se tornar evidente, necessita de demonstração, assim Pasolini irá demonstrar cuidadosamente sua tese por meio de experiências às quais suas personagens estarão expostas e de certa forma submetidas.
Estimuladas por um misterioso e metafórico visitante (que encarna “o desconhecido”), hipnotizadas, fascinadas pelo que ele representa para elas (a “salvação” para as suas vidas medíocres e entediantes), as personagens passam a se mover sob seus comandos, sob o poder encantatório que ele exerce sobre elas. Como será, afinal, experimentar o desconhecido?
As experiências vividas com o estranho, com o desconhecido, destroem os referenciais sobre os quais cada personagem havia construído sua identidade, resultando no vazio insuportável que precisa ser novamente preenchido por algo. Como suportar a perda das referências que as identificam em termos de conduta sexual, padrão de vida, posição social, profissão, etc.? O que restaria ao ser humano desprovido de suas máscaras? O que lhe restaria ao perceber que sua existência não passa de uma ficção, de uma mentira? Pois, ao perceber a condição artificial de suas existências, as personagens “enlouquecem”. Uma delas entra em estado de choque porque deseja a todo custo reter em suas mãos, capturar e conservar para si aquilo que lhe causou prazer; outra torna-se compulsiva na busca de satisfação sexual por meio de sucessivas aventuras; outro torna-se vítima de um delírio artístico, de uma obsessão criadora; uma outra se “santifica” e cria um mundo místico ao seu redor. Terá ela se salvado?
A cena final do industrial totalmente despido representa o ser humano despojado de todos os valores sociais e de todas as vaidades humanas: sem identidade, sem rumo, completamente só em meio ao deserto desconhecido, onde só o tempo, voraz, se faz presente, passado e futuro. Um homem nu, desterritorializado, sem posses, sem status. Seu grito parece ser de desespero, de angústia, de solidão, mas também pode ser de uma libertação. Contudo, é angustiante, ainda que revele uma possibilidade de redenção.
Siomara Spinola
Contudo, o filme extrapola o contexto político-histórico ao desenhar uma cartografia sentimental das relações que se estabelecem entre as personagens, atravessadas por diferentes afetos em diferentes intensidades. Transcendendo as questões políticas, sociais, econômicas, Pasolini coloca questionamentos ligados ao sistema de crenças e valores, ao sentido da vida, enfim, sob a forma de metáforas. A sexualidade é o canal por onde os fluxos se movimentam.
Uma vez que um teorema é uma proposição que, para ser admitida ou se tornar evidente, necessita de demonstração, assim Pasolini irá demonstrar cuidadosamente sua tese por meio de experiências às quais suas personagens estarão expostas e de certa forma submetidas.
Estimuladas por um misterioso e metafórico visitante (que encarna “o desconhecido”), hipnotizadas, fascinadas pelo que ele representa para elas (a “salvação” para as suas vidas medíocres e entediantes), as personagens passam a se mover sob seus comandos, sob o poder encantatório que ele exerce sobre elas. Como será, afinal, experimentar o desconhecido?
As experiências vividas com o estranho, com o desconhecido, destroem os referenciais sobre os quais cada personagem havia construído sua identidade, resultando no vazio insuportável que precisa ser novamente preenchido por algo. Como suportar a perda das referências que as identificam em termos de conduta sexual, padrão de vida, posição social, profissão, etc.? O que restaria ao ser humano desprovido de suas máscaras? O que lhe restaria ao perceber que sua existência não passa de uma ficção, de uma mentira? Pois, ao perceber a condição artificial de suas existências, as personagens “enlouquecem”. Uma delas entra em estado de choque porque deseja a todo custo reter em suas mãos, capturar e conservar para si aquilo que lhe causou prazer; outra torna-se compulsiva na busca de satisfação sexual por meio de sucessivas aventuras; outro torna-se vítima de um delírio artístico, de uma obsessão criadora; uma outra se “santifica” e cria um mundo místico ao seu redor. Terá ela se salvado?
A cena final do industrial totalmente despido representa o ser humano despojado de todos os valores sociais e de todas as vaidades humanas: sem identidade, sem rumo, completamente só em meio ao deserto desconhecido, onde só o tempo, voraz, se faz presente, passado e futuro. Um homem nu, desterritorializado, sem posses, sem status. Seu grito parece ser de desespero, de angústia, de solidão, mas também pode ser de uma libertação. Contudo, é angustiante, ainda que revele uma possibilidade de redenção.
Siomara Spinola
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Espreita
Onde
tá tu
tatu?
Na toca?
Na espreita?
À espera?
Mas... a hora
Não é agora?
Quem sabe
Talvez não
Não importa
A hora se faz
Ela própria
Nas tramas
Nas linhas
Nos fios
Invisíveis
Do pensamento
tá tu
tatu?
Na toca?
Na espreita?
À espera?
Mas... a hora
Não é agora?
Quem sabe
Talvez não
Não importa
A hora se faz
Ela própria
Nas tramas
Nas linhas
Nos fios
Invisíveis
Do pensamento
terça-feira, 24 de março de 2009
Estética da abdicação
"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar..." (Fernando Pessoa)
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